Sobre o sono de segunda, versões e originalidade.

Pois ontem dormi virtualmente.

Não quis entrar no blog, escrever, parir.

O hiato necessário, a espera, uma pausa. Alguma coisa que traga alguma coisa e que assim vá… essa história de deitar o oito, sempre.

E acabei, no meio disso tudo, ouvindo cds antigos, tirando poeira de muita coisa que nem lembrava… de repente o Jeff grita algo e tem um grupo de 8 pessoas que, se gritam, ouço: Jeff Buckley, Thom Yorke, Nick Drake, David Bazan, Damien Rice, Vitor Ramil, Elliott Smith e Rodrigo Amarante. (prometo uma postagem da lista feminina)

Poucas coisas batem forte como essa matemática do infinito e dela me vem muitas coisas, desde trilhas até lampejos de brilhantismo, passando claro, pelas portas da iluminação - sem nunca ter entrado por lá. Veja bem, eu tenho um pouco de fotofobia, mas não consigo usar óculos escuros… que sina.

Mas o Jeff gritou Hallelujah e deu eco. Me fez lembrar do Top que fazemos na Garapa com as 3 melhores fotos da semana. E foi assim a sequência musical: Jeff Buckley, David Bazan e Damien Rice… tudo em Hallelujah.

E claro que depois disso era necessário ouvir o Leonard Cohen e entender porque o Canadá é tão Canadá.

Do que ainda acredito

Ontem foi dia de janta-reunião da Garapa.

Planos pra 2009, retrospectiva de 2008, análises, discussões e um pouco de fotografia. Em algum momento, naturalmente, tudo descamba para política e assisti, ainda terminando meu prato de risoto de lula, a uma calorosa discussão entre Paulo e Digão sobre nossos “registros” para o blog nikecorre.com

A jante terminou, cada um foi pra sua casa e eu fiquei pensando sobre política, sobre engajamento, sobre envolvimento em alguma coisa. Sobre a coragem inocente e ingênua de achar que podemos mudar qualquer coisa e sobre o niilismo cômodo de deixar como se é, já que se acaba.

Em pensamentos mil sobre crenças, racionalismo e emotividade, lembrei de algo que ainda acredito, seja racional ou emotivamente.

Assim, sentei no sofá com a Mari e com a Michele para assistir ao Walking, animação do canadense Ryan Larkin em 1968. Poucas coisas ainda me fazem babar como a primeira vez.

Porntoon

Porque sexta-feira é dia de ser noite:

GODfrey, a Fabrica e as crianças

Desde que conheci o trabalho de Godfrey Reggio com a trilogia Qatsi que entendo o cinema como audiovisual.

Nos dvds da trilogia tem um extra com entrevistas brilhantes dele falando sobre ser um cego, surdo, mudo - mas conhecendo os olhos, o músico e a equipe que quer ao lado dele.

Não deve ser novidade pros parcos visitantes daqui que minha experiência na Fabrica, o centro de mídia da Benetton, não foi das melhores - mas descobri que o Godfrey esteve por lá, 10 anos antes de mim, na abertura do centro.

Pra Benetton ele fez o vídeo abaixo. A maestria que só cabe em um cego, surdo, mudo…

Fotografia de Guerra

Sempre me interessei muito pelo tema. Vários fotógrafos que gosto são fotógrafos de guerra, mas - definitivamente - não sei se encararia a cobertura de um conflito. Espero poder tomar essa decisão um dia.

Por enquanto, vou me contentando com o youtube e o ótimo canal sobre o tema:

Mais deles aqui.

Annie e o retratismo

Esses dias falei algo sobre ter trabalhado no Palácio do Piratini durante o governo Olívio Dutra. Pois o governador, sempre que me encontrava - não sabendo meu nome, mas também não querendo perder a simpatia - chamava-me de retratista.

Nunca quis ser exatamente um retratista, embora a tradição dos retratos na fotografia seja algo forte e eu os tenha sempre feito, principalmente para a Folha. Retrato pressupõe momento, momento pressupõe intimidade, intimidade pressupõe interesse, interesse pressupõe tempo e tempo, bem tempo quase nunca temos para fazer retratos em periódicos onde as pessoas dispõe de 30 minutos, contando com a “setagem” de luz.

Além desses ricos fatores existe um outro importantíssimo: direção. Semprei odiei dirigir alguém… parecia aquela coisa fotógrafo de moda afetado: baixa o queixo, sorri com os olhos, mais atitude, atitude! Ou pior, pensa que agora você vai me dar um tapa na cara! C’mon - não dá pra viver na disney a vida toda, eu não consigo, de verdade… então retratos, para mim, viraram o simples-complicado: a escolha de locação, a luz bem feita e a espera pelo momento em que o retratado fará alguma coisa interessante ali no meio.

Claro, esse sistema funciona muito mais quando você sabe quem é o retratado, do que ele gosta, o que ele faz e - de repente - aquela mão abrindo um botão, junto com a cabeça quase encostada no peito dá um ótimo retrato.

E por que um post inteiro sobre retratos?

Simples, saiu o filme da Annie Leibovitz e quero ver como ela dirige.

Foi Capa!

Fotojornalistas têm essa tendência a supervalorizar capas. Não fosse verdade, a expressão foto de capa nem existiria. A verdade é que, hoje em dia, além da maioria das capas ter o mesmo tema (ou a mesma foto - já que muitas capas são de agências) - a capa é quase sempre pautada no dia anterior por já se saber qual fato será capa e como se quer aquela foto na primeira página.

Se a famosa síndrome das 24 horas no jornalismo transcorrer como o scrip escrito na véspera, a capa vai ser morna, já que foto quente deixou de estar impressa faz tempo. Se a primeira edição nacional da Folha de S. Paulo fecha às 20:30 e seus leitores a receberão ali pelas 6, 7 da manhã - são mais de 10 horas sem cobertura alguma… é quase como se aquela informação pela qual se paga, fosse uma meia informação. Aqui eu poderia até abrir um adendo e dizer que, como a maior parte do jornal é feita por freelas, universitários, que ainda pagam meia entrada, seria justo que os assinantes, recebendo meia informação, também gozassem do mesmo privilégio nas suas assinaturas - mas vamos nos prender as capas!

Não deixa de ser uma boa aventura compará-las, analisá-las, estudá-las. A fotografia da Folha tem seu painel de capas. Figuram lá o Agora, JT, Diário, Estadão, além - claro - da Folha. Sempre me perguntei porque os gringos não estavam no mesmo painel, embora a comparação só fosse possível em dia de capa internacional com escolha de foto de agência.

Agora encontrei um site onde posso ver essas capas todas, lado a lado… as fotos do dia. O newseum é o museu da mídia, retendo todas as primeiras páginas encontradas na net. A navegação é simples, o layout questionável (não precisava de tanto azul), mas o conteúdo é bacana e vale algumas horas de visita.

Mas lembre-se, a foto do dia de hoje é sempre de ontem.

ps: e por falar em ontem esqueci de avisar que, segundo o diabo, domingo é dia santo e não tem postagem diária!

O segundo bom Flying Club

Se eu já me assumia paga pau de um Flying Club - o Cup do Beirut - dessa vez acho bom fazer carteirinha de sócio já que o Bombay Flying Club bateu forte.

Tudo bem que o pessoal que trabalha com programação odeia sites em flash, mas esses caras souberam trabalhar o formato. Ótimas fotos estourando em página inteira, áudio bem gravado e interatividade com os entrevistados por meio de um menu lateral.

Ainda não assisti todos os docs, mas o Bucharest Below Ground é meu favorito so far.

Reborn and from hell!

Um post por dia, essa é a promessa!

Para conseguir esse talento de postagens diárias fiz o que todo mundo faz, fui na encruzilhada com o laptop e comecei a digitar… o resto é história, o diabo apareceu, estranhou o lap (está acostumado a guitarras), pediu minha alma e pronto.

Contrato assinado, postagens diárias garantidas.

Mas como o diabo é o pai do rock, a cláusula 1 do contrato previa que a retomada do blog fosse com algo relativo ao tema. Pois, pra mim não é muito difícil, toda minha adolescência foi regada a Slayer, Megadeth, Metallica, Iron, Sepultura… mas não queria uma retomada sonora, queria algo tão denso e profundo como um pacto com o diabo.

Eis que o belzebu me sussura o vídeo abaixo na orelha

Todo mundo que teve família católica e ouvia rock vai se identificar, ainda mais se estudou no CONSA!

E já que o post é diabólico, aproveita e garante de vez uma vaga no inferno baixando o disco todo.

“Pirataria é o que liga”- sussurra Zé Pilinta.

ps: O post vai dedicado pra Julia que, reza a lenda, também vendeu a alma pro vermelhinho.

Coletividade

treviso empty town, 2005.

treviso empty town, 2005.

A primeira vez em que troquei mensagens com João Kehl foi às vésperas de minha viagem para a Fabrica em Treviso. Kehl tinha acabado de fotografar a Bahia, ainda assistente da Cia de Foto, no ensaio que o levaria a final do primeiro prêmio Fotosite Fnac. Eu, por outro lado, tinha acabado de receber o email que me levaria a conhecer Enrico Bossan e Omar Vulpinari. Boas pessoas, péssimos tutores, já que gostam tanto de hierarquias. Ainda em Treviso lembro de ter trocado algumas linhas com o Kehl pelo msn, era início de julho em um 2005 cheio de novos caminhos. Treviso me parecia tão vazia e cheia de furos quanto aquele prédio projetado por Tadao Ando e pela primeira vez me sentia enraizado a alguma brasilidade que tinha ficado pra trás, dizia a João. Ele, por sua vez contava que adiaria as viagens internacionais pois tinha recebido o convite para ser sócio da Cia. Fechamos o msn e a vida fez o que mais sabe fazer, seguiu.

Dois anos depois, ou 731 dias depois - já que tivemos um ano bissexto - julho de 2007 começou a mostrar sorrisos largos. Rodrigo Marcondes, amigo desde a sexta série do colégio veio de Londres para a Revista e Guia da Folha, enquanto eu deixava as mesmas publicações para ter como editor Toni Pires, um cara que saca muito mais de imagem, não só de fotografia, do que todo pessoal da Fabrica junto. Poucos meses depois desembarca na mesma Folha, vindo de NY, Paulo Fehlauer, com quem eu também tinha trocado mensagens muito similares as que relatei com Kehl. E foi ali, entre Folhão e Padoca (já que às vezes queremos um ambiente de boteco mais, digamos assim, limpinho) que resolvemos construir o que é hoje essa Garapa.

Ainda lembro quando o Digão, levado por alguém, acho que pela Sil (me corrige nos comentário se estiver errado), foi bater um papo com o pessoal da Cia a respeito de coletivos, sua criação, assinatura e até divisão de grana. Com toda a sorte que lhe cabe, Rodrigo teve o celular roubado logo ao sair da Cia e dali começou sua saga perdendo inúmeros aparelhos depois do incidente. Mas mais do que um típico assalto paulistano o que mais impressionou o Digão foi a forma coletiva de assinar. Contou com extrema admiração a forma com que o crédito Cia de Foto era usado ao invés de X, Y ou Z e com isso se resolviam tantos problemas, desde o famoso ego entre “artistas” (ainda prefiro ser arteiro) até a escolha de um ou outro fotógrafo pelo cliente, já que, não sabendo nomes, vai quem o coletivo decidir.

Pra mim, um ególatra por infância e adolescência, repleto de ídolos - que achava Cliff Burton e o Metallica pré-black album o supra sumo da idolatria, a idéia me parecia estranha, ao mesmo tempo em que, mesmo sem um psicanalista, já via a necessidade de combater os resquícios de delírio juvenil por fama e não simplesmente reconhecimento.

Entrou o ano do 8 e com ele as possibilidades infinitas. A Garapa começou a produzir mais do que caldo de cana e a assinatura coletiva foi dividida com os top semanais que entregavam quem fez o quê, ou pelo menos davam dicas, instigando a curiosidade sobre quem teria fotografado tal pauta, porém sem estimular a escolha de um fotógrafo preferido, apenas imagens que mais agradavam.

E claro que, no momento em que o ano resolvesse balançar o braço nos primeiros sinais de despedida, seria necessário que algum acontecimento forçasse-nos a repensar todo esse caminho. Foi assim que, participando de uma lista de fotografia, chegou o link de belas imagens feitas pela Cia sobre a Vale do Rio Doce para a Time Magazine. Como todo prego que se destaca é martelado, inúmeros fotógrafos criticaram as fotos, concentrando o debate sob dois aspectos: pós-produção e assinatura coletiva.

Quanto a pós-produção a discussão é tão antiga quanto a criação da fotografia digital e tão bizarra quanto entregar um arquivo raw diretamente para um cliente. Acho que nenhum grande fotógrafo faz isso, mas criticar o aprimoramento estético de uma pós-produção de tonalização que virou assinatura dos caras é mais fácil do que compreendê-la (assim também é com Saudek e Adrzej Dragan). Penso que a crítica é semelhante a desmerecer o Santana por usar aquele compressor grave na PRS dele e tirar um som tão característico que se descobre quem é na primeira nota. Ou até mesmo os amplificadores furados do Hendrix que criaram os primeiros overdrive e seriam depois acompanhados pelo Crybaby definindo o que hoje são os solos de guitarra em rock’n'roll. Para os puristas mesmo, o melhor é uma Tonante plugada direto em um Brabus 15″.

Já a assinatura coletiva foi combatida como sendo um retrocesso aos diretitos autorais. Aqui cabe um adendo, a fotografia carece hoje de uma discussão aberta, envolvente e carregada de bom senso sobre os rumos que está tomando (e não que deve tomar, pois “pra frente é que se anda”). Grande parte dos profissionais está temerosa em relação ao futuro de sua notoriedade, seja pela utilização do creative commons, que é visto como vilão - ou pela coletivização da produção fotográfica que, segundo muitos, ainda é aquele afazer solitário-bressoniano-de-contato-com-o-divino-interior. Pois, não me vejam como senseless, amo as imagens do Bresson, assim como todo legado fotográfico dos grandes mestres, mas sei que vivemos um novo tempo e esse período me abriu possibilidades de agrupamento tão saudáveis que possibilitaram a criação deste espaço e criarão muitos outros, não só para mim, mas como inúmeras criações coletivas que se importam mais com a construção de uma comunidade do que com sua assinatura individual: SpaceCollective, BlackBox, entre outros.

Ninguém está aqui colocando o coletivo acima do indivíduo pois isso seria o mesmo que repetir os erros dos governos comunistas para com a atividade artística, mas a proposta é criar em coletivo preservado individualidades e construindo peças tão ou mais autorais simplesmente por compreender a diversidade por fundamento.

E como o ano do 8 é amálgama do infinito, conversando com o Kehl descobri que eles já estavam por dentro da conversa na lista e, a partir daquele ponto, resolvi colocar em ação um plano antigo da Garapa, entrevistas pessoas que admiramos e que podem render bons papos em mesa de bar. Assim, neste terça-feira, 30/09/08, a garapa vai estar em boa cia, colocando na roda todos esses assuntos e o que mais vier. Preparem-se para uma boa leitura e novidades das novas e das velhas também, já que uma das melhores coisas de um coletivo é apresentar para o outro o novo que já nos é passado, como assinatura coletiva!



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