Barraquinha do taco pós balada de abertura do FPW

Barraquinha do taco pós balada de abertura do FPW

Foram mais de 20 dias longe de casa, tentando entender esses lugares que se estendem novos a nossa visão e compreensão. A primeira parada foi a cidade do México com suas avenidas largas e plano urbanístico de encher os olhos. Por lá participei do Foundry Photo Workshops, evento elaborado pelo Lightsalkers e com a presença de diversos renomados fotógrafos (a lista completa pode ser vista aqui. Entre eles destaco Stanley Greene, experiente fotógrafo de guerra, fundador da novíssima agência Noor, vencedor do World Press e, como se não bastasse tudo isso, ex-assistente de William Eugene Smith, a quem se refere carinhosamente como Gene. Só em poder ouvir suas histórias sobre o apartamento sempre lotado de Gene Smith em New York, ou sobre o dia em que Gene pegou a M3 recém comprada por Stanley, usando-a para colocar um prego na parede e dizendo “it´s just a tool, Stanley!”, já teria valido a viagem – mas o workshop que resultou no trabalhado “blood on the floor” (falo mais sobre ele no fim do texto) foi além disso.

Durante os sete dias de atividades, painéis e discussões, Stanley nos incentivou a não fotografar e ficar ali, numa das salas do aavi conversando, discutindo e traçando os rumos da nossa produção fotográfica. Naquela sala emergiram importantes questões, como a concentração dos “assignments” nas mãos de fotógrafos do dito primeiro mundo; na lei de “orphan works” que tramita na esfera governamental americana; na decaída dos direitos autorais e o pensamento de creative commons; na não acomodação com a grande mídia como Newsweek e similares e a necessidade da criação de novos espaços, especialmente o acessível e de largo alcance espaço virtual. Junto a esse caldeirão de idéias, a cada noite um grupo de não menos que três reconhecidos fotógrafos apresentava slideshows com seus trabalhos e depois abria uma hora para perguntas. Neles pude conhecer o trabalho de algumas figuras interessantíssimas, como Shaul Schwarz, israelense que usa flash na câmera pra fazer algumas das mais plásticas e impressionantes fotografias de guerra que já vi e que, mesmo presenciando realidades tão densas, ainda encontra tempo pra “brincar” com seu ensaio sobre sósias (look-a-likes). Grande amigo de Shaul, Benjamin Lowy foi mandado ao Iraque pela primeira vez quando Shaul teve seu visto negado por ser israelense e Jim Nachtwey desistiu da ida. Seus trabalhos também são de uma plasticidade fantástica.

O painel da segunda noite foi reservada a fotografia latino-americana. Representando o Brasil, Adriana Zebrauskas, ex-fotógrafa da Folha de São Paulo, apresentou um ótimo trabalho, com uma edição não linear, confrontando imagens distintas, muitas delas tendo como tema principal a religiosidade. Atualmente Adriana é casada com o chefe da AP para América Latina, também conhecido como senhor sabonete, explico. É interessante ver como a diplomacia é importante nesses cargos “terno e gravata” da fotografia. Ao ser questionado por uma norte-americana sobre o que eles estavam perdendo de informação sobre a América latina, Mr.AP inicia dizendo que a cobertura do continente estava sendo muito bem feita e blá, blá, blá… foi necessária uma intervenção da platéia dizendo que se estava perdendo uma “revolução abaixo da linha do equador, já que a imprensa norte-americana insistia em tratar Hugo Chávez e Evo Morales como palhaços”, ouvindo isso, o fotógrafo do LA Times Mike Chavez tomou o microfone e disparou “realmente se estão perdendo as ascensões sul-americanas, tanto as esquerdas governistas, como as economias fortalecidas de Brasil e Chile”. Mais importantes do que a produção fotográfica que pela primeira e única noite fugiu ao “clichê” foto do Iraque, foi a discussão que se formou depois do encerramento, demandando mais espaço e união para a fotografia latino-americana. Como veículo concreto de aproximação, o fotógrafo Rodrigo Cruz me apresentou um portal que não conhecia. Nuestra Mirada é extremamente bem feito, com design limpo e de navegação fácil e pode ser um ótimo ponto de encontro e discussão com nossos colegas. O único fator negativo, ao meu ver, é a obrigatoriedade em ser cadastrado para ver as galerias de imagens.

A última noite contou com a presença do diretor de fotografia da National Geographic David Griffin. David passou um vídeo interessantíssimo sobre a forma de edição da National, onde o fotógrafo, depois de voltar da viagem, expõe suas fotos em um auditório para a equipe da Geographic e sugere quais as fotos prediletas contando suas histórias. O dado surpreendente foi saber que a National fica com todas, absolutamente todas as imagens em RAW feitas pelo fotógrafo. Pensando no tempo do filme, onde os rolos eram muitas vezes enviados direto pra redação, até que faz sentido, mas ainda me desce torto não poder editar nada do que se fez. Griffin também mencionou a técnica do premiado fotógrafo Steve MCcurry que, para ter mais contraste em suas fotos, quase sempre usa cromos vencidos e bem vencidos! Mas o mais surpreendente foi o vídeo sobre Paul Nicklen, biólogo que resolveu se dedicar a fotografia e entrou pro time da National como especialista em vida selvagem. Em uma de suas viagens resolveu mergulhar com Leopardos Marinhos para descobrir se eram ou não animais violentos. O vídeo mostrava Paul em frente a um leopardo marinho com mais de três vezes o seu tamanho. O irônico é que o mamífero tentava alimentá-lo trazendo pingüins para ele. Primeiro vivos, depois semi abatidos até o ponto de matar pingüins pra ver se aquele ser estranho na água não iria mesmo se alimentar!

Por fim chegou a hora das apresentações de todos os grupos e conseqüentemente a exibição do nosso trabalho. Junto com Paulo Fehlauer, meu companheiro de Garapa, usamos as poucas horas de fotografia para fazer um mini-doc sobre agricultores mexicanos que estavam acampados no Distrito Federal Mexicano depois de terem suas casa queimadas em 1992. O vídeo em qualidade média pode ser conferido no nosso site. Já “blood on the floor” conta com o trabalho de todos os ótimos amigos e fotógrafos que participaram da turma de Stanley Greene. Desse grupo de talentosos fotógrafos que dividiram a sala comigo poderia citar todos, mas por enquanto me concentro em três nomes e links: Brian Frank, direto de São Francisco, mas morando no México, um dos “idosos” da turma, que assim como eu, tem 28 anos. O trabalho dele sobre a Santa Muerte e as fotos na Bolívia são incríveis! Michael Mullady, outro dos Californianos, o trabalho dele sobre uma lésbica cadeirante é fenomenal, isso sem falar em suas fotos sobre o Peru. Já a MJR, é uma agência que tem entre seus fundadores Mustaffa Abdulaziz e Matt Craig. Com um ótimo site, além de trabalhos belíssimos, a MJR é um desses sites pra passar horas.

Para fechar o evento com chave de ouro na categoria clichês brasileiros, eu e Diego Padgurschi, também fotógrafo do grupo Folha, preparamos Caipirinhas brasileiríssimas pros gringos! Aliás, o trabalho do Diego sobre uma ocupação popular no meio da zona rosa mexicana é excelente! Depois já era hora de arrumar as malas e pensar em Havana.

O desembarque na ilha de Fidel foi tudo que meu sonho de juventude socialista esperava, placas e outdoors ressaltando os feitos da gloriosa revolução de 1959. Pois a glória iria se dissipar nos próximos dias depois de entrevistarmos os blogueiros do desdecuba, com destaque para a premiada Yoani Sanchez e o inteligentíssimo professor universitário Dimas Castellanos.

Outro encontro marcante foi com o roqueiro Gorki, líder da banda Pornô para Ricardo. Impedido de tocar em Cuba por ser anti-castrista declarado e depois de passar dois na cadeia por estar com dois comprimidos de ecstasy no bolso, a entrevista de Gorki é uma dessas afrontas a todos os meus sonhos de adolescência passadas em grêmios estudantis e imaginando um Fidel Castro bem romantizado.

Mas Cuba é um assunto tão longo quanto as 15 horas de gravação que voltaram com a Garapa apertadas na mala com as caixas de puros cubanos. Sobre a ilha faremos um longa documental que, espero, dirá muito mais do que sou capaz pois, como já avisava Aldir Blanc, pra frente é que se anda [...] o apreço não preço, eu vivo ao deus dará.


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