
treviso empty town, 2005.
A primeira vez em que troquei mensagens com João Kehl foi às vésperas de minha viagem para a Fabrica em Treviso. Kehl tinha acabado de fotografar a Bahia, ainda assistente da Cia de Foto, no ensaio que o levaria a final do primeiro prêmio Fotosite Fnac. Eu, por outro lado, tinha acabado de receber o email que me levaria a conhecer Enrico Bossan e Omar Vulpinari. Boas pessoas, péssimos tutores, já que gostam tanto de hierarquias. Ainda em Treviso lembro de ter trocado algumas linhas com o Kehl pelo msn, era início de julho em um 2005 cheio de novos caminhos. Treviso me parecia tão vazia e cheia de furos quanto aquele prédio projetado por Tadao Ando e pela primeira vez me sentia enraizado a alguma brasilidade que tinha ficado pra trás, dizia a João. Ele, por sua vez contava que adiaria as viagens internacionais pois tinha recebido o convite para ser sócio da Cia. Fechamos o msn e a vida fez o que mais sabe fazer, seguiu.
Dois anos depois, ou 731 dias depois - já que tivemos um ano bissexto - julho de 2007 começou a mostrar sorrisos largos. Rodrigo Marcondes, amigo desde a sexta série do colégio veio de Londres para a Revista e Guia da Folha, enquanto eu deixava as mesmas publicações para ter como editor Toni Pires, um cara que saca muito mais de imagem, não só de fotografia, do que todo pessoal da Fabrica junto. Poucos meses depois desembarca na mesma Folha, vindo de NY, Paulo Fehlauer, com quem eu também tinha trocado mensagens muito similares as que relatei com Kehl. E foi ali, entre Folhão e Padoca (já que às vezes queremos um ambiente de boteco mais, digamos assim, limpinho) que resolvemos construir o que é hoje essa Garapa.
Ainda lembro quando o Digão, levado por alguém, acho que pela Sil (me corrige nos comentário se estiver errado), foi bater um papo com o pessoal da Cia a respeito de coletivos, sua criação, assinatura e até divisão de grana. Com toda a sorte que lhe cabe, Rodrigo teve o celular roubado logo ao sair da Cia e dali começou sua saga perdendo inúmeros aparelhos depois do incidente. Mas mais do que um típico assalto paulistano o que mais impressionou o Digão foi a forma coletiva de assinar. Contou com extrema admiração a forma com que o crédito Cia de Foto era usado ao invés de X, Y ou Z e com isso se resolviam tantos problemas, desde o famoso ego entre “artistas” (ainda prefiro ser arteiro) até a escolha de um ou outro fotógrafo pelo cliente, já que, não sabendo nomes, vai quem o coletivo decidir.
Pra mim, um ególatra por infância e adolescência, repleto de ídolos - que achava Cliff Burton e o Metallica pré-black album o supra sumo da idolatria, a idéia me parecia estranha, ao mesmo tempo em que, mesmo sem um psicanalista, já via a necessidade de combater os resquícios de delírio juvenil por fama e não simplesmente reconhecimento.
Entrou o ano do 8 e com ele as possibilidades infinitas. A Garapa começou a produzir mais do que caldo de cana e a assinatura coletiva foi dividida com os top semanais que entregavam quem fez o quê, ou pelo menos davam dicas, instigando a curiosidade sobre quem teria fotografado tal pauta, porém sem estimular a escolha de um fotógrafo preferido, apenas imagens que mais agradavam.
E claro que, no momento em que o ano resolvesse balançar o braço nos primeiros sinais de despedida, seria necessário que algum acontecimento forçasse-nos a repensar todo esse caminho. Foi assim que, participando de uma lista de fotografia, chegou o link de belas imagens feitas pela Cia sobre a Vale do Rio Doce para a Time Magazine. Como todo prego que se destaca é martelado, inúmeros fotógrafos criticaram as fotos, concentrando o debate sob dois aspectos: pós-produção e assinatura coletiva.
Quanto a pós-produção a discussão é tão antiga quanto a criação da fotografia digital e tão bizarra quanto entregar um arquivo raw diretamente para um cliente. Acho que nenhum grande fotógrafo faz isso, mas criticar o aprimoramento estético de uma pós-produção de tonalização que virou assinatura dos caras é mais fácil do que compreendê-la (assim também é com Saudek e Adrzej Dragan). Penso que a crítica é semelhante a desmerecer o Santana por usar aquele compressor grave na PRS dele e tirar um som tão característico que se descobre quem é na primeira nota. Ou até mesmo os amplificadores furados do Hendrix que criaram os primeiros overdrive e seriam depois acompanhados pelo Crybaby definindo o que hoje são os solos de guitarra em rock’n'roll. Para os puristas mesmo, o melhor é uma Tonante plugada direto em um Brabus 15″.
Já a assinatura coletiva foi combatida como sendo um retrocesso aos diretitos autorais. Aqui cabe um adendo, a fotografia carece hoje de uma discussão aberta, envolvente e carregada de bom senso sobre os rumos que está tomando (e não que deve tomar, pois “pra frente é que se anda”). Grande parte dos profissionais está temerosa em relação ao futuro de sua notoriedade, seja pela utilização do creative commons, que é visto como vilão - ou pela coletivização da produção fotográfica que, segundo muitos, ainda é aquele afazer solitário-bressoniano-de-contato-com-o-divino-interior. Pois, não me vejam como senseless, amo as imagens do Bresson, assim como todo legado fotográfico dos grandes mestres, mas sei que vivemos um novo tempo e esse período me abriu possibilidades de agrupamento tão saudáveis que possibilitaram a criação deste espaço e criarão muitos outros, não só para mim, mas como inúmeras criações coletivas que se importam mais com a construção de uma comunidade do que com sua assinatura individual: SpaceCollective, BlackBox, entre outros.
Ninguém está aqui colocando o coletivo acima do indivíduo pois isso seria o mesmo que repetir os erros dos governos comunistas para com a atividade artística, mas a proposta é criar em coletivo preservado individualidades e construindo peças tão ou mais autorais simplesmente por compreender a diversidade por fundamento.
E como o ano do 8 é amálgama do infinito, conversando com o Kehl descobri que eles já estavam por dentro da conversa na lista e, a partir daquele ponto, resolvi colocar em ação um plano antigo da Garapa, entrevistas pessoas que admiramos e que podem render bons papos em mesa de bar. Assim, neste terça-feira, 30/09/08, a garapa vai estar em boa cia, colocando na roda todos esses assuntos e o que mais vier. Preparem-se para uma boa leitura e novidades das novas e das velhas também, já que uma das melhores coisas de um coletivo é apresentar para o outro o novo que já nos é passado, como assinatura coletiva!
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Comments ( 1 Comment )
[...] de alguns dos assuntos que serão abordados hoje, depois do expediente, lá no estúdio deles está aqui. A foto desse post foi tirada da caixa de sapatos que eles colocaram no flickr, antes como CC, [...]
[ Garapa | Coletivo Multimídia ] » Arquivo » Coletivizando added these pithy words on Sep 30 08 at 8:18 am