No final do ano passado tive algumas boas e esclarecedoras conversas sobre fotografia. Lembro bem do almoço com Carlos Carvalho, falando sobre Festfoto, coletividade e documentarismo.

Já no começo desse ano, dia 05 pra ser mais preciso, eu e o Rodrigo sentamos pra conversar sobre nossas angústias e buscas fotográficas e, coincidentemente, estávamos no mesmo vale.

Ontem encontrei o gUi Mohallem (não errei a grafia!) para uns copos rápidos no cbzinho e novamente a fotografia, como a concebemos, aonde ela nos afeta e em que lugar ela nos faz nortear a nós mesmos, foram a tônica de 4 horas de assunto.

Pois bem, Carlos me fez dichavar o conceito de coletivo que temos na Garapa, como pensamos o afazer fotográfico em grupo, porém mantendo a autoria. As idéias da conversa repercutiram no blog de Simonetta, onde o “wikiblogismo” se fez presente em uma cascata de comentários. Essas informações intercruzadas me fizeram questionar a autoria coletiva, tanto debatida, mas encontrando pontos interesantíssmos como - embora meu trabalho pressuponha coletividade - preciso estar sozinho, com o objeto fotografado, para comecar a compreendê-lo.

Já na conversa com o Rodrigo aquestão central foi pra onde vai e deonde vem essa fotografia que fazemos? É ilógico pensar que, no momento do clique, temos 100% de consciência do que estamos fazendo, como se fossemos senhores da imagem a ser captada. Porém, a falta de controle absulto não pressupõe descontrole e aí o caminho começa a ficar engenhoso… nos colocamos como crianças pequenas que não podem e nem devem abandonar a idade dos porquês. Porquês esses interrogativos, já que os “parce que, car, puisque e comme” da vida parecem cada vez mais distantes.

Com o gUi trocamos relatos sobre a digitalidade de nossa produção e em como tentamos frear a velocidade com que as imagens nos aparecem. Pareceu-me uma boa fórmula não baixar os cartões da câmera de imediato, assim como desligar o instant view do LCD, e tratar um Compact Flash com o carinho que tratava meus tri-x, dando a ele o tempo de maturação que faria com que, no dia seguinte, revelado - ele se mostrasse vaidoso em folha de contato. Com o digital a saída é mais simples, basta deixar o CF fotografado do lado do computador por um dia e abri-lo no dia seguinte. 24 horas são tempo suficiente para limpar um pouco do universo imagético de um ensaio da cabeça e abrir a possibilidade de se surpreender com o fotografado.

Pois chego em casa e o gUi manda um link para falar da primorosa Muzi Quawson. A referência inicial era o blog de Liz Kuball de onde me caiu a pérola abaixo. Um texto do diretor Jim Jarmush falando sobre referências e nosso instinto psicótico de busca por originalidade.

Liz Kuball

Liz Kuball

A partir do próximo post começo a colocar aqui as referências que fizeram de 2008 um grande ano de preparação.


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Comments ( 5 )

Oi Leo, tudo bom?
Uma contribuição: meu cartão de 2GB na minha Nikon D-50 gera 280 arquivos Raw. Divididos por 36 poses, dá 7,7 filmes. Sete filmes sempre foram suficientes para fazer qualquer trabalho que me fosse pautado. É assim que trabalho. Fotografo epretando a atenção para ver quantos “filmes” restam.
Baixo as fotos pro computador e só edito, ou seja “marco no contato” as fotos que me interessam. Não revelo nada, a não ser quando serão usadas. Tem dado certo.
Bom, sobre o Godard, em seu último filme exibido no Brasil (elo menso foi o último que eu vi), em uma determinada cena ele afirma que a imagem que vemos agora é o resultado de todas as imagens que temos arquivadas em nossa mente. Eu acresceto, arquivadas depois de serem reveladas nos dois banhos básicos da fotografia: a revelação no estômago e a fixação no intestino. E nesse caso, sim o importante é pra nde vc leva e de forma vc leva. Acredito que o Garapa está no esforço correto. As crises existenciais aconteem esmo de 15 em 15 dias. Mas nada que um choque de realidade nua e crua não nos coloque de novo buscando a prata perdida em algum lugar.
Só agora, te juro, que vi o debate que estava rolando no blog da Simonetta. Aí mandei um comentário. Se me permite vou repetir aqui o que mandei para o Trama. abs
Alô todo mundo.
Viiixi….mais de meio metro de discussão!
Ando tão envolvido com o FestfotoPoA que tenho ficado à margem de coisas interessantes. E confesso que estou meio envergonhado de constatar que o Leo citou nossa conversa e só agora estou vendo esse debate. Pode ter parecido que não dei bola. Mas sinceramente só agora vi que está rolando.
Se permitem, queria colocar 3 questões:
1)A primeira e básica para mim é que sou fotojornalista e não artista. Se me esmero no enquadramento, na diferenciação dos planos e na busca uma luz especial, não é por preocupação estética, mas sim porque não quero que a informação contida ali se perca. Tampouco quero que a minha fotografia perca sua vocação de representação da realidade.
2) Não vejo sentido mais em discutir autoralidade. Cada um assine como quiser. Acho que é uma questão de Auto-respeito ou auto-desrespeito. Todos os instrumentos de defesa do direito autoral estão aí, quem quiser que use. Se existem fotógrafos que fazem fotos de divulgação e aceitam que o crédito é Foto de divulgação, o problema é deles.
3) Mas acho que existe uma pequena confusão entre a autoralidade de uma foto publicada (o crédito em si e todas as suas consequências) com a autoria de uma foto captada. Nesse caso, para exercer a prática de negar a existência de um autor em uma fotografia é preciso antes, demarcar territórios, a começar pelo próprio território da fotografia e acho que a fotografia não deve expulsar a fotografia do território da fotografia. Sim, existe um território próprio da fotografia por mais que os artistas fiquem zangados com isso. E a negação do indivíduo/autor, embora tenha um discurso estético, está mais ligado a uma demanda de mercado do que a discussões sobre as possibilidades da fotografia no campo da arte.
Mas voltemos ao território da fotografia de informação. Aqui não tem espaço para experimentos. Informação é poder. E poder é disputa de projeto. Perguntem à família Roberto Marinho ou ao Silvio Santos. Não é uma questão de gostar ou não gostar. É assim. Não é uma “questão estética”, mas sim a estética como um instrumento utilizado pelo poder e é preciso ter cuidado e ser responsável. E nesse caso existem duas questões que estão abrindo caminho para lugares que considero perigosos. O discurso que nega o “autor” e se apresenta como algo que abre possibilidades de expressão e pretende desconstruir a imagem pós-moderna (como algo em si mesma) e sepultar o documental como linguagem legítima, na verdade abre um enorme caminho que vai ao encontro dos desejos das grandes corporações. Negar o indivíduo é o sonho máximo de toda corporação. É o primeiro passo importante para concretizar a derrubada da última barreira a qual o capital ainda não encontrou instrumentos de confronto: a barreira cultural. É a base cultural de uma família, de uma rua, de um bairro, de uma cidade, de um estado, de uma nação, de uma tribo, de povos tradicionais, que ainda impede que o capital decida definitivamente o que e como seremos.O capital consegue perpetrar um grande estrago mas não consegue derrotar, aniquilar. E uma base cultural se expressa através dos indivíduos. Aliar esse discurso de negação do indivíduo/autor a uma estética claramente comprometida com a linha de produção implantada pelas novas tecnologias pode levar a situações que devem ser discutidas com cuidado. Quero enfatizar: quando se trata de publicidade ou criação artística aguardemos e fiquemos atentos. É esse o papel da publicidade, trabalhar no plano da fantasia e vender a idéia de que ela é possível para todos. Só que, aos poucos, vamos nos acostumando com a idéia de que tudo à nossa volta é fantasia. Desculpem mas miséria é miséria. O cara feliz da vida que corre pelas ruas só porque tem um celular de tal companhia é um sujeito pago para ser feliz durante os 15 segundos da propaganda. E existe uma tecnologia incrível para tornar essa alegria aguda. Que importa que a cena pareça idiota? - Um bando de pessoas de repente começa a dançar e elas se tornam felizes de repente por possuírem um celular de tal marca – sabemos que é fantasia, mentira. Todos ali foram pagos para serem felizes. Mas se você for na periferia de qualquer grande cidade brasileira, não vai encontrar ninguém sendo pago para representar a miséria. Quando essa linha de produção pós-foto tenta tirar da fotografia o caráter de representação da realidade – e isso tem uma intenção - então entramos em um campo minado onde é preciso ter muito cuidado. Não dá para criticar o Salgado e dizer que ele estetiza a miséria (discordo)e usar do mesmo artifício para “desconstruir a imagem pós-moderna e o mito do instante único e deslegitimar o documental”. A conversa é muito mais ampla que isso.
Trabalhar com “fotografia de informação”, requer além de domínio técnico, boa base de informação e algum talento e muita sorte, um compromisso com o que você está fotografando. É preciso ser responsável com o que se está “trazendo a um público maior”. Você decide se assume o compromisso da empresa onde trabalha, se assume um compromisso pessoal ou um compromisso resultante da sua relação com o fotografado. Para mim o que define um trabalho autoral não são as preocupações estéticas de um autor mas também as questões políticas evidenciadas no seu trabalho através dos instrumentos de construção de uma imagem.
As contradições do capitalismo não acabaram, o mundo apenas mudou de matriz tecnológica e toda mudança de matriz é promovida pelo agente básico do capital: o capitalista. Sim, aquela chatice da luta de classes existe mesmo. Você pode não querer participar disso, é um direito seu, mas ela existe. O que isso tem a ver com fotografia? Tudo. A nova matriz tecnológica introduziu a fotografia digital. E se antes, na fotografia analógica - havia (como há) como diz o fotógrafo gaúcho Luiz Carlos Felizardo uma sintaxe do aparato ótico/mecânico da fotografia, existe hoje uma sintaxe que define a linha de produção pós-foto no mundo digital. Não foi incapacidade técnica que fez a indústria digital lançar o JPEG antes do Raw. Era necessário encontrar outra fórmula parecida com o “Aperte o botamos que nós fazemos o resto” da Kodak quando do lançamento das primeiras câmaras fotográficas.
Essa sintaxe está sendo usada para tentar tirar da fotografia a sua vocação de representação da realidade. Alguns fazem isso conscientemente, outros estão embarcando na onda sem pensar nas conseqüências. No campo da expressão artística, nada contra e existem resultados realmente interessantes. Mas no campo da fotografia de informação, confesso que tenho dificuldade em aceitar – não a foto, que depois de lida é inevitável (e aí reside todo seu perigo) – mas a postura do seu autor.
Duas observações finais.
Acredito que não seja preciso discutir a questão da contradição entre objetividade jornalística (discutível) e a subjetividade da fotografia e suas conseqüências na fotografia de informação. A foto de Luiz Vasconcelos – que acabou de ganhar o World Press - é um recorte da realidade. É a subjetividade dele. Mas alguém duvida que aquela mulher está sendo vítima de um despejo e violentamente? (nesse caso em todos os sentidos: despejada de sua dignidade, da sua maternidade, da sua “casa”, etc.)?
Pessoalmente o que mais me atraiu, desde o início, na aparição da era digital foi a possibilidade de independência prática para o fotojornalista independente. Nesse aspecto, me aproximo muito do Garapa. Estão fazendo disparado o melhor aproveitamento do instrumento, aliando um belo trabalho fotográfico, qualidade na veiculação e compromisso com a vida.
Por fim. Devo informar que todas essas questões serão debatidas no próximo FestFotoPoA (de 20 a 26 de abril de 2009) num seminário chamado “Fisiologia da Fotografia de informação”. Onde estarão presentes nomes como Joaquim Marçal, J.R.Ripper, Nair Benedito, Evandro Teixeira, Custódio Coimbra, Pedro Motta, Pedro Davi, João Castilho, Iatã Cannabrava, Rubens Fernandes Junior, O coletivo Garapa e João Wainer. Pelo menos por enquanto, é isso. Abraço em todos.Carlos Carvalho

Carlos Carvalho added these pithy words on Feb 16 09 at 1:54 pm

oi leo! bem massa a discussão, serão infinitamente necessárias. li o post do carlos, me deixou com vontade de ir ao festFoto (quem sabe!) curto bastante o trabalho do gUi também; geração legal a dos >25<30 por aqui, adoro. beijo

paula rúpolo added these pithy words on Feb 26 09 at 7:42 pm

Bem mais curto que o Carlos Carvalho, mas pra cobrar: atualiza aí cara!

Marenco added these pithy words on May 22 09 at 6:04 pm

Sempre passo aqui para “te ler”, embora nunca tenha deixado algum comentário que comprove isto…Hihihiihihiih

Mas pô Léo!!!! Escreve mais aí! Eu imagino que talvez tu prefira tua câmera, mas bahhhhhhh, dá um sinal de letra aqui!

Beijo!

Laiza Boell added these pithy words on Jun 25 09 at 4:31 am

Hey there, thank you for the share, you have always impressed, I am glad that i could come here.

soft-7.com added these pithy words on Jun 19 10 at 12:19 am

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