Gordon Parks está morto. Se você não é fotógrafo, cinéfilo ou estudante do movimento negro americano provavelmente nem ouviu a notícia, mas conto, o fato ocorreu em março de 2006.
Ainda lembro de tê-la visto num canto de janela, na capa do UOL. Curioso que o óbito de um fotógrafo de tamanho renome ocupasse pouco espaço, já que dois anos antes os falecimentos de Henri Cartier-Bresson e Richard Avedon foram amplamente cobertos.
Mr. Parks, como era chamado por Malcolm X, teve uma infância tão complicada quanto a de vários outros jovens afro-americanos que presenciaram o auge da segregação racial. Mas o que um fotógrafo tão atuante nas décadas de 60 e 70 tem a ver com multimídia?
Pois muito. Gordon Parks dirigiu o filme Shaft e esqueça a versão com Samuel L. Jackson, estamos falando de 1971. Criou assim a onda de filmes sobre cultura negra que ficou conhecida como Blaxploitation. Em Shaft a trilha sonora era tão importante que chegava a coadjuvar em diversas cenas de ação e que, por isso mesmo, recebeu a contribuição de Gordon Parks em sua faceta musical. Isso sem falar que dois anos antes, em 1969, adaptou, dirigiu, roteirizou e compôs integralmente a trilha de “The Learning Tree”, sua novela autobiográfica e que foi o primeiro filme de um negro a ser produzido por Hollywood.
Parks também foi pioneiro na imprensa, onde foi o primeiro afro-americano a compor o quadro de fotógrafos da revista Life, publicação para a qual fotografou e escreveu sobre o movimento “A Nação do Islã”, onde figuravam Malcolm X, Elijah Muhammad e Muhammad Ali-Haj. A revista era vista com desconfiança pelo movimento negro, o próprio Elijah perguntou pra Parks o que fazia um negro com as suas qualificações trabalhando para os brancos inimigos. O cavalo de Tróia foi o argumento de Parks que, mesmo contrariando o consenso separatista vigente da época, ganhou a permissão para registrar sem censuras o cotidiano do islamismo negro. Com habilidade e talento ímpares Gordon Parks conseguiu equilibrar o trabalho de grande impacto e visibilidade na imprensa branca com as recentes amizades que fazia cativando o movimento negro liderado por Malcom X.
Parks também esteve no Brasil onde fotografou e escreveu sobre o início do crescimento das favelas cariocas, apadrinhou o menino Flavio da Silva de 12 anos, asmático e tuberculoso que cuidava de sete irmãos, enquanto o pai vendia querosene no asfalto e a mãe trabalhava de lavadeira. Sob sua tutela Flavio foi levado para tratamento de saúde nos EUA e depois de curado regressou para o Brasil, onde a convivência com o padrinho foi constante por mais de 40 anos.
Muito além de assistencialistas, as ações de Parks eram resultado da sua trajetória simples que incluía empregos como garçom, pianista de bordel e jogador de basquete universitário, mas foi numa Voigtlander Brilliant usada, comprada por US$ 7,50, que Gordon Parks encontrou seu ponto de equilíbrio: “Percebi que a câmera poderia ser uma arma contra a pobreza, contra o racismo, contra todos os tipos de injustiças sociais”, dizia. E eu, revendo meu livro Half Past Autumn, uma retrospectiva dos trabalhos de Parks, percebi que multimídia está longe de ser uma novidade.
Ainda sobre multimídia
junho 4th, 2008 § 1
Lágrimas de Capivara
maio 26th, 2008 § 5
Há tempos venho me pressionando para postar algo no blog. Talvez por ser o membro menos internáutico da Garapa, talvez por ser crítico demais em relação aos tópicos que me proponho, ainda não tinha escrito nada. Mas vou tentar (mesmo sabendo que não vou colocar tantos links interessantes quanto o Leo e o Paulo costumam fazer).
Fiz uma matéria semana passada sobre mergulhadores no rio Tietê . Não se trata de esporte, lazer, nem nada relacionado a scuba fun (se é que o termo existe). São mergulhadores profissionais, que de tempos em tempos descem nas águas escuras do velho e mal tratado Tietê com o objetivo de monitorar o leito do rio e fazer manutenções necessárias para a boa fluência das milhares de toneladas de bosta que São Paulo despeja no que potencialmente seria um dos cenários mais lindos da cidade.
O Tietê é tópico recorrente no meu discurso de botequim. Sempre que passo por ali ou penso no rio, imagino um projeto mirabolante de criar túneis gigantescos que engoliriam as marginais e transformariam a parte superior num parque gigantesco, cheio de opcões de lazer e cultura para o povo paulistano. Seria mais ou menos como os túneis da Imigrantes, passando com a marginal 10 metros abaixo da terra, e deixando a orla do rio livre do fluxo de automóveis. Às vezes penso até em, num dia de congestionamento recorde, desligar o ventilador de dentro do túnel e deixar uns 3 milhões de paulistanos motorizados morrerem dentro de suas máquinas. São Paulo ia sorrir.
Penso também na despoluição do rio. Mas não vou me aprofundar no assunto, talvez somente falar quatro nomes de rios que deveriam fazer todos os paulistanos darem uma mordidinha na alça do sutiã de vergonha e aborrecimento: Danúbio, Tâmisa, Tevere e Sena. Não preciso falar mais nada, né?
Para concluir, vou reproduzir o que um amigo inglês disse quando fui buscá-lo em Guarulhos: “Cara, mas qual é o ponto deste rio? Se vocês querem mesmo é que os carros passem por aqui, por que não tapam logo essa merda e constróem mais seis pistas?!” Nada como a pontualidade britânica!
Mas o que é multimídia?
maio 16th, 2008 § 2
O Michaelis já define seu verbete: “sf (multi+mídia) Inform: Sistema que combina som, imagens estáticas, animação, vídeo e textos, com funções educativas, entre outras. M. interativa, Inform: sistema multimídia em que o usuário pode acionar um comando, que é respondido pelo programa, ou controlar ações e funcionamento do programa. adj Inform Referente ao aplicativo que contém uma combinação de som, gráficos, animação, vídeo e texto.” Mas a definição de um sistema mutável pode ser estanque?
Responder com foro de verdade o que é multimídia pode ser tão difícil quanto já foi definir o papel da fotografia quando criada por Talbot e Daguerre. As respostas então, no melhor do pluralismo, vêm em forma de produção. E foi assim, sem grandes pretensões, que Beirut – banda que a Garapa já usou como trilha do especial Boliviano – lançou no ano passado The Flying Club Cup. O “disco” é um ótimo exemplo de criação multimídia. Trata-se de uma reunião de registros em vídeo gravados ao vivo no Brooklyn, NY, nos quais a banda muitas vezes separa os intrumentos quase como em camadas e vai somando-os conforme o vocalista, compositor de todos os instrumentos, letrista e mentor do projeto Zach Condon (o cara na foto, clicado por Danelle Manthey) se move pelo “set”. O site ainda prima pelo inusitado ao dispor as músicas em clique de fotos, aparentemente, aleatórias e sem divulgar o nome da canção que se abrirá ao escolher a imagem preferida.
Outro bom exemplo de produto multimídia é a produção argentina do BLU, onde uma animação em stop motion ganha os muros de Buenos Aires e outras províncias hermanas. O vídeo se chama Muto e já começa a ser figurinha carimbada no youtube. Além da qualidade dos desenhos e ambientações, a abertura anunciando a licensa em creative commons é outro bom indício de qualidade, a intelectual.
Os nórdicos também mandam muito bem, como prova o catálogo online da Ikea feito pelos suecos da F&B e pelos noruegueses da Thomson. O trabalho foi feito em 2005 e, além de continuar atual, influenciou outras centenas, desde filmes publicitários a abertura de novela da Globo. Eu amo as passagens de abertura entre um quarto e outro, o Fehlauer já pira mais no slow motion dentro de cada cena.
E já que o post passou pelos EUA, Argentina, Suécia e Noruega, porquê não dar um pulo no Japão? É de lá que vem o exemplo, ainda não sei se bom ou ruim, de aliar ginástica a aulas de inglês, tudo com o melhor da estética oitentista presente no início da produção dos anos 90. Ainda não sei como alguém conseguiu convencer uma emissora de TV com essa idéia, mas fico muito grato por te-lo feito, pois assim garantiu minhas risadas da semana. Assista aqui ao episódio sobre frases relacionadas a saúde e não deixe de procurar mais episódios do Zuiikin English.
Trinta e Poucos Dias
maio 7th, 2008 § 4
Faz pouco mais de um mês que espalhamos, por nossa rede de contatos, o link da Garapa. Um mês atrás, estávamos ainda um pouco inseguros quanto à recepção que teríamos, já que estamos trabalhando com um formato que, apesar de não ser tão novo assim, ainda é pouco difundido no Brasil.
Trinta e poucos dias depois, colecionamos uma série de citações e comentários sobre o nosso trabalho. Começou na comunidade fotográfica, com os blogs 28mm, do Henrique Manreza, Granulado, da Carla Romero, e Lost Art, de Louise Chin e Ignácio Aronovich.
“A iniciativa merece aplausos e é um chute no traseiro dos jornais brasileiros que acham que internet é só publicar os textos das edições impressas sem fotos ou qualquer conteúdo adicional.” Ignacio Aronovich.
Depois, foi a vez da comunidade ligada ao chamado webjornalismo. O Rodrigo Savazoni começou a série pelo seu blog, republicando o material em seguida no Overmundo e Observatório da Imprensa:
“Se você navega por sites gringos, com o olho condicionado, encontra reportagens de altíssima qualidade. Isso é resultado da explosão do jornalismo digital nos últimos dois anos. Texto, áudio, vídeo, foto, mashups, mapas reunidos por criativos jornalistas resultam em histórias contadas de um jeito que jamais se viu. Alguns chamam de multimídia. Eu gosto da expressão hipermídia.
No Brasil, esse processo é mais lento. Pouca gente, até agora e infelizmente, apostou em boas reportagens digitais. [...]
Fehlauer, Caobelli e Marcondes resolveram entrar nessa briga. Por enquanto, estão fazendo na raça. Logo logo, espero, alguém vai sacar e vai bancar para eles condições de seguirem aperfeiçoando essa linguagem.”
Dali, a notícia percorreu os caminhos tortuosos da rede. Fomos parar no blog do GJOL, Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online, da UFBA, coordenado pelo prof. Marcos Palacios, e até em Portugal, no Ponto Media, blog do prof. António Granado, da Universidade Nova de Lisboa, referência em pesquisa sobre jornalismo online.
Mais do que fazer um mero ‘afago egocêntrico’, o que queremos mostrar com esse texto é a repercussão de uma idéia. Em vez de reclamar da falta de espaços para mostrar o nosso trabalho, resolvemos criar o nosso próprio, e assim nos inserimos nessa rede de possibilidades que é a internet.
Como bem lembrou Ignácio Aronovich, citando Jello Biafra, “don’t hate the media, become the media.” (não odeie a mídia, seja a mídia).
Mais citações:
- Cutaway – Alex Praça;
- Capítulo 0 – Manuel Gago (Portugal);
- Coisas do Gênero – Blog coletivo de alunos da Faculdade de Comunicação da UFBA.
Garapa no The hub
maio 2nd, 2008 § 3
Por mais que force a lembrança, não consigo recordar como encontrei o The Hub, mas lembro que, no momento em que o vi, sabia que a Garapa deveria participar. O Hub é um projeto de coworking e o nascimento do espaço pode ser acompanhado pelo próprio blog. O projeto existe em Londres, Johannesburg, Rotterdam, Bristol e agora aqui em Sao Paulo. A idéia principal é a de ser um escritório aberto, dividindo a infra-estrutura com todos o participantes que pagam pelo serviço de forma à la carte, ou seja, dependendo da necessidade de cada pessoa ou empresa, uma mensalidade é definida.
Claro que poder contar com um bom espaço de trabalho, aliado a uma conexão rápida e ambientes de relaxamento são ótimos motivos pra embarcar na idéia, mas mais do que isso, fazer parte de um projeto acolhedor, cercado por pessoas com vários objetivos em comum e que tendem a se aproximar podendo inclusive colaborar em parcerias é a condição inegável para nossa participação.
A foto é do primeiro encontro do grupo piloto que já começa a habitar uma antiga fábrica de tecidos na Bela Cintra e também foi registrada no blog Não Zero e no Papagallis.
Indústria do Sexo
abril 21st, 2008 § 4
Começamos a desenvolver um projeto sobre a indústria da pornografia, juntando ensaios com personalidades dessa indústria e depoimentos pessoais. Começamos por uma entrevista com a atriz Anita Ferrari, ex-Dreamcam e hoje apresentadora de programa erótico no Canal Adulto. Acompanhe por aqui o progresso desse trabalho.
Isso é Jornalismo?
abril 10th, 2008 § 13

Foto alterada digitalmente pela revista IstoÉ
Como fotojornalistas, e como cidadãos, sentimo-nos na obrigação de declarar nosso repúdio à recente publicação, pela Revista IstoÉ, de uma foto alterada digitalmente, como os caros leitores podem verificar pelas cópias de tela que acompanham esse texto.
A foto original foi feita pelo fotógrafo Cristiano Machado, publicada e comercializada pela Folha de S. Paulo. Como podem perceber, a inscrição “Fora Serra” foi apagada na versão da IstoÉ.

Em texto publicado na Folha de S. Paulo de hoje, 10 de abril, o editor-executivo da agência IstoÉ confirmou a alteração e pediu desculpas:
Houve realmente manipulação por photoshop [programa de computador] da imagem dos sem-terra, com intenção absolutamente estética.” Ele afirmou, por telefone, que “não houve nenhuma ordem [superior], nenhuma orientação política, nenhum dolo. Houve um mal-entendido”.
O debate sobre a manipulação de imagens no jornalismo não é novo, mas não lembramos de ninguém, em nenhum fórum, que tenha sinceramente defendido a prática. A alteração feita pela IstoÉ foi, além de claramente ideológica (apesar de a revista negar), leviana, e desrespeitosa tanto com o fotojornalista autor da imagem quanto com o leitor da revista.
Acreditamos que o trabalho jornalístico, como todos os outros, deve ser feito com honestidade e transparência, independente de posições políticas/editoriais. No momento da leitura, trava-se um pacto de confiança entre leitor e veículo, pacto esse que percebemos ter sido quebrado pela revista.
Felizmente, temos a internet como um espaço aberto de debates no qual tais atitudes não passam despercebidas. Felizmente, podemos contar com o público para inibir ações inaceitáveis como essa.
Mais:
- Versão online da matéria da Revista IstoÉ que contém a foto alterada;
- Versão original da fotografia publicada pela Folha de S. Paulo (desça um pouco na página para encontrar a imagem);
- Artigo no Observatório da Imprensa sobre o caso.
Slideluck Potshow em São Paulo
fevereiro 22nd, 2008 § 0
Direto da coluna social: a Garapa Imagem marcou presença na primeira edição brasileira (e latino-americana) do SlideluckPotshow, realizada em São Paulo.
O evento foi criado em Nova York pelo fotógrafo Casey Kelbaugh, e hoje está espalhado pelo mundo. Trata-se de um encontro gastro-fotográfico: os participantes contribuem com fotos e apetitosas iguarias para serem ambas saboreadas pela turma.
Parabéns aos criadores, à organização e a todos os participantes. Estaremos lá na próxima edição. Confira algumas das imagens abaixo, e confira a notícia no Fotosite.
Bem-vindos
janeiro 19th, 2008 § 1
Olá! Sejam bem-vindos.
A Garapa nasceu há alguns meses, como toda grande idéia, em volta de mesas de bar. Saíamos da redação do jornal para pensar em algo novo, sintonizado com as tendências do jornalismo da era da internet. Também queríamos trazer de volta o prazer em se fazer jornalismo, o prazer de contar histórias. Buscamos denominadores comuns, e nos aproveitamos das diferenças. O resultado começa agora.
Nosso objetivo é produzir conteúdo jornalístico multimídia para meios de comunicação online. Resumindo, produzimos documentários em curta-metragem sobre temas variados, discutidos com nossos clientes. Nos propomos a humanizar a notícia, colocar o leitor-espectador-participante em contato mais orgânico com a informação.
É muito fácil nos encontrar: seja pelo nosso site, blog, portfolio, ou pelas páginas do Flickr e YouTube, estamos por aí. Acreditamos no potencial da internet e desde já assumimos nosso lado virtual.
Interessados? Entrem e fiquem à vontade! Ou seria melhor dizer… sirvam-se?
Garapa é:
Leo Caobelli, fotógrafo free-lancer, colaborador de diversos meios de comunicação do Brasil, como os jornais Folha de S. Paulo e revistas do Grupo Abril. Em 2005, foi selecionado para a Fabrica, centro de pesquisa em mídia da Benetton, na Itália;
Paulo Fehlauer, fotógrafo free-lancer e blogueiro, colaborador de veículos como o jornal Folha de S. Paulo e Revista Época. Passou 2 anos em Nova York trabalhando no International Center of Photography, e foi assistente do fotógrafo Ed Kashi no PhotoCamp, evento da National Geographic Magazine;
Rodrigo Marcondes, fotógrafo free-lancer, colaborador de veículos como o jornal Folha de S. Paulo e revistas do Grupo Abril, tendo vivido na Itália e Reino Unido.
Obrigado!











