Alcoólicas: Cia de Foto

outubro 15th, 2008 § 42

Iniciamos aqui as Alcoólicas, sessões de papo fotográfico (ou não) regadas a qualquer bebida que esteja disponível. A idéia é simples: garrafas abertas, gravador no centro da roda, câmeras espalhadas e…

Para estrear a seção, fomos até a casa da Cia de Foto.

Clique nos botões para ouvir trechos da conversa. Para ouvir todos na seqüência, basta clicar em um botão e controlar o player.

 

 

É quase meia-noite quando João apanha a nossa câmera, então em algum ponto do chão do estúdio, e declara esta uma produção coletiva. Estamos, talvez, já na quarta hora desse papo que durará mais de cinco. Sem saber mais de quem eram as fotos, esse conteúdo visual, que embaralha dois coletivos, despretensiosamente mantém a sua autoria enquanto reforça os telhados, já que a chuva é de pedras.

Nas definições enciclopédicas da palavra coletivo, sobram referências naturais como alcatéia, colméia, bando, arquipélago. A que mais nos chamou a atenção, no entanto, foi revoada. Segundo o Michaelis, revoada (re.vo.a.da), no coletivo, corresponde a um bando de aves que voa de volta ao seu ponto de partida.

Durante o nosso papo, Pio citou esse ponto de partida por diversas vezes, seja na revisitação que a fotografia faz a todo momento , seja citando Cartier-Bresson e Robert Capa. Somos então não muito mais do que pássaros que preferem voar em companhia, e que só querem circular e voltar ao ponto que chamaram de partida. Assim, se torna natural que os desavisados ainda usem estilingues e pedras contra a revoada.

As pedras, no caso da Cia, são muitas vezes as comparações com a linguagem publicitária, rebatidas por Pio , ou o questionamento sobre o tratamento de imagem .

Percebemos, na conversa, que a Cia enxerga as pedras pelo caminho, mas sem tropeçar. Como, por exemplo, quando o João foi premiado com o World Press Photo e imediatamente celebrizado , sem que a discussão envolvesse a participação do coletivo como um todo, seja na preparação , mérito ou no próprio questionamento da autoria .

Outro caso semelhante é o do jovem fotógrafo Ronaldo Camelo, ganhador do Prêmio Porto Seguro na categoria revelação, que teve o suporte da Cia de Foto para desenvolver seu projeto .

A questão da autoria foi um dos fios condutores da nossa conversa, já que essa reunião de mais de 5 horas se originou a partir do questionamento sobre autoralidade individual x coletiva em uma lista de discussão sobre fotografia.

A pergunta sobre quem é a Cia de Foto não pode ser respondida sem que se saiba como ela funciona: quem a anula e como são pensadas e quebradas internamente as suas hierarquias . Uma resposta é simples, no entanto: o modelo proposto pelo coletivo é, sim, funcional .

Talvez todas essas pedras possam ser resumidas à crise em que o fotojornalismo se encontra, como lembrou o Rafael, em um momento em que as artes dialogam com a realidade muitas vezes com mais propriedade do que a fotografia de periódicos .

É também no contexto dessa crise que o sindicalismo fotográfico e o pensamento burocrático, na defesa da “reserva de mercado”, se mostram refratários a mudanças e resistentes a quem queira quebrar as supostas regras .

Foi explorando esses diversos caminhos que a Cia chegou à internet, abrindo mão do velho mantra fotográfico da cópia em papel, e se mostrando em pêlo no Flickr , inserindo-se assim em discussões sobre Creative Commons e copyright .

Quanto ao filho mais novo do grupo, o blog, os “Cias” assumem seu lado “fotógrafo-preciosista”. A atualização é lenta, porque tudo precisa ser bem pensado, trabalhado e digerido antes de ir pro ar .

Saímos da Cia depois da 1h da madrugada, com as pedras já desfeitas em pó, e com a certeza de que aquele momento coletivo ímpar caminhava para sua multiplicação, mesmo que apenas de garrafas .

Cenas




Mais:

Música: Supertalented – You’re Wrong – Birdsong Netlabel.

 


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Garapa no Fotosite TV

setembro 25th, 2008 § 0

Participamos, nessa quinta-feira, às 16h, do programa FS TV, realizado pelo Fotosite e transmitido ao vivo pelo FS Online e pelo Terra TV. O tema do debate são os blogs fotográficos e as possibilidades do uso da web pelos fotógrafos.

Nos acompanha no bate-papo o fotógrafo Bruno Miranda, da agência Na Lata e do blog Copromancia; pelo telefone, participam Alexandre Belém, do Olha, Vê, e Simoneta Persichetti, todos fotógrafos-blogueiros. Envie suas perguntas e sugestões de blogs pelo e-mail fotosite@fotosite.com.br.

Portanto, se você está lendo esse post antes das 16h, clique aqui para assistir à entrevista ao vivo. Do contrário, clique no mesmo link para assistir à entrevista gravada.

Aguarde também por aqui os nossos comentários.

Tierra Desnuda – Garapa no México

julho 8th, 2008 § 8

Por alguns dias, garapa virou guarapo. Acabamos de passar 20 dias em terra estrangeira, expandindo os horizontes pela América Latina. Começamos pela Cidade do México, onde participamos do Foundry Photo Workshop, um evento que reuniu dezenas de fotojornalistas e aprendizes do mundo inteiro.

Entre as diversas discussões que tivemos, conseguimos puxar um pouco a conversa para alguns tópicos que nos tocam diretamente. Primeiro, a necessidade de uma maior integração dos profissionais latino-americanos. Uma das questões que discutimos foi a abertura da grande mídia a profissionais locais, ou “por que é que os jornais enviam um fotógrafo americano para cobrir conflitos no Haiti?”. Claro que a pergunta não foi respondida, mas isso motivou uma discussão bem interessante e contatos promissores.

Parênteses: se esse assunto lhe interessa, entre na comunidade Nuestra Mirada, criada para integrar os profissionais latino-americanos.

Outra discussão derivada da primeira foi relacionada à própria idéia de grande mídia – no caso, grande mesmo, Time e Newsweek, por exemplo. Mais uma vez, o acordo entre os jovens fotógrafos foi de que há a necessidade de buscar outros caminhos, há um mundo inteiro a ser explorado. Nunca na História foi tão fácil produzir e distribuir conteúdo; se o famigerado mercado não paga por esse conteúdo, então que se crie um mercado novo, alternativo. E bola pra frente.

Além de toda a discussão, precisávamos produzir. No período da nossa estadia no México, um grupo de trabalhadores rurais sem terra – Movimiento de Los 400 Pueblos – acampava em uma praça na região central da cidade. Duas vezes ao dia, eles tiravam as roupas e se postavam nus em frente a uma das principais avenidas da capital mexicana, batucando e gritando por “respuesta”, sempre cercados por um cordão de policiais que se limitavam a assistir à manifestação diariamente.

Resolvemos, então, documentar um pouco do cotidiano e dos anseios desse grupo, e chegamos ao mini-documentário que acompanha esse texto: Tierra Desnuda.

Depois do México, seguimos para Havana, Cuba, mas isso é assunto para outro post.


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