“É melhor morar em ocupação do que na rua.”

junho 17th, 2009 § 10

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O Edifício Prestes Maia já foi a maior ocupação vertical da América Latina. Passou mais de 12 anos abandonado, acumulando 4 milhões de reais em dívidas com a Prefeitura, até que 468 famílias resolveram tomar os seus apartamentos e corredores. A ocupação durou quase 5 anos. No dia 15 de Junho de 2007, o prédio foi totalmente desocupado e lacrado.

Poucos meses antes, muitas das famílias que viviam no Prestes Maia se mudaram para um novo endereço ali perto, em frente à Estação da Luz. Na madrugada do dia 25 para 26 de março daquele ano, essas famílias ocuparam o número 340 da Rua Mauá. O edifício, que esteve fechado por 10 anos e que nos seus tempos áureos abrigou o Hotel Santos Dumont, passou a ser habitado por cerca de 120 famílias, que se engajaram na recuperação do prédio.

Foi lá que conhecemos melhor os habitantes desta São Paulo que São Paulo não faz questão de conhecer, ou reconhecer: uma grande maioria de migrantes nordestinos que ergueram prédios, abriram avenidas, cuidaram de lares e hoje não têm seu direito à moradia respeitado.

Publicamos parte deste material na primeira edição brasileira da revista Vice, lançada este mês. Para quem quiser ver, o link é http://www.viceland.com/br/v1n0/htdocs/squat-thrusts-880.php?country=br. Por aqui, confira uma edição mais pessoal do trabalho.

Alguns depoimentos:

“Minha bisneta está desaparecida, fugiu de casa com uma amiga. A avó dela sonhou que ela estava afogada em uma cachoeira, mas a gente ainda acredita que ela esteja viva. A mãe está grávida de mais um, e assim a gente vai vivendo. Não é fácil morar em São Paulo, uma cidade tão rica, mas tão cheia de pobreza. Eu tenho parentes morando debaixo do Minhocão, passando fome, frio, medo. É melhor morar em ocupação do que na rua.”
Maria do Carmo, ou vó, como é carinhosamente conhecida, mora na antiga zeladoria do hotel.

“Eu morava de aluguel num cortiço na Rio Branco, mas daí alagou lá e eu perdi tudo, roupas, móveis… aí eu, meus 3 filhos e meu marido viemos morar aqui porque uma colega conseguiu esse quarto pra nós. Atualmente, meu marido está desempregado, mas faz um bico aqui, um bico acolá e assim a gente vai juntando alguma coisa”.
Cacilda da Silva.

“Agora ele tá bem, mas quando chegou no hospital ninguém dizia que ia viver. Os médicos chegaram a jogar fora um pedaço do crânio dele porque achavam que ele já estivesse morto, e agora ele precisa fazer a cirurgia pra colocar uma placa. Ele também precisa de uma cadeira de rodas, porque está ficando com desvio na coluna porque não tem mais firmeza nas pernas. Tudo por causa do meu ex-marido. Já fazia 7 meses que a gente estava separado mas ele não aceitava a separação. Aí, pra me atingir, ele entrou em casa, deu um tiro no meu filho, na minha mãe e se matou depois. Comigo ele não quis fazer nada, quis me deixar sozinha, sofrendo. Mas Deus é justo, deixou meu filho e minha mãe vivos. Com minha mãe não aconteceu nenhuma sequela, só com o Arturzinho.
Roberta Sílvia Guimarães Dutra e Arthur Guimarães Dutra.

“Uma vez eu fui convidada para uma apresentação no exterior por causa do movimento, pra apresentar o MSTC (Movimento Sem-Teto do Centro) lá fora. Daí, quando eu cheguei, meu marido tinha pintado o apartamento e escrito esse “Eu Amo Você” na parede. É bom né, chegar e ver uma coisa assim, ainda mais pra nós que passamos tanto tempo lutando por moradia, pelo nosso espaço, pelos nossos direitos”.
Ivaneti de Araújo, coordenadora do MSTC.

Não

novembro 20th, 2008 § 1