Vídeo produzido para o canal VBS.TV, da Vice Magazine, sobre Ronaldo Mazotto, ex-carcereiro do Carandiru, que guarda em sua casa objetos, fotos, vídeos e documentos da época em que trabalhou no presídio.
INFO:
- Idioma: Português, com legendas em inglês;
- Produção e imagens: Coletivo Garapa;
- Edição: VBS.TV.
Nenhum estudo até hoje publicado por neurocientistas conseguiu responder a uma simples pergunta: o que é a memória? O máximo que sabemos é que cada um dos nossos 100 bilhões de neurônios produz de 5 a 10 mil conexões sinápticas entre si. Essas conexões são as bases da atividade cerebral; elas se formam e enfraquecem; lembram ou esquecem.
Ronaldo Mazotto de Lima é um ser humano comum e, como qualquer outro, dotado de um tele-encéfalo altamente desenvolvido e dono de 500 a mil trilhões de sinapses. O que guardam suas memórias que o diferem de outras pessoas, de outros funcionários, de outros governantes e de tantas outras trilhões de sinapses?
Mazotto é agente penitenciário e, enquanto funcionário, presta serviços ao Governo do Estado de São Paulo. Durante mais de 10 anos de sua carreira, Mazotto trabalhou na Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida pelo nome de seu bairro, o Carandiru. Ronaldo Mazotto integrou a primeira leva de funcionários que chegou ao presídio depois do que ficou conhecido como o massacre do Carandiru. No dia 02 de outubro de 1992, o que começou como uma briga entre detentos, após intervenção policial, resultou em 111 mortes. A partir desta data, governantes prometeram a desativação do presídio e, em dezembro de 2002, o complexo de prédios foi implodido para dar lugar a um parque.
Nenhuma cela foi conservada, nenhum resquício do presídio foi deixado no parque para lembrar a história do que já foi a maior penitenciária da América Latina. É como se todas as sinapses dos governantes de São Paulo quisessem esquecer o que aconteceu atrás dos muros do Carandiru.
Após a desativação do presídio, Mazotto foi transferido para uma prisão de segurança mínima no município de Serra Azul, interior do estado. Com uma população estimada em 8.000 habitantes, Serra Azul se iguala ao número de detentos que já abrigou o Carandiru em seus dias de maior lotação. Para a cidade, Ronaldo Mazotto levou mais do que sua experiência como agente penitenciário. Junto a ele, foram cerca de trezentos objetos e duas mil fotos, além de 10 horas de gravação em vídeo, tudo coletado dentro do presídio. Mazotto, diferentemente dos governantes, não tem motivos para se esquecer, e assim fala sobre seus dias dentro da Casa de Detenção:
Sobre o Trabalho:
“Durante 5 anos eu cuidei sozinho do quinto andar do pavilhão 9. Todo dia eu abria as celas, soltava os presos e fazia a contagem. O contato com eles era direto. Se alguém quisesse te matar, matava… Mas os presos não tinham problemas com funcionários que sabiam seus limites. Já o funcionário que apreendia droga de uma cela e vendia pra outra, era visto como bandido e caia na mesma lei deles… dai quando tinha acerto de contas, morria funcionário também”.
Sobre Rebeliões:
“Um momento que me marcou muito foi o de uma rebelião que durou 3 dias. Foram 3 dias como refém. Começou com os presos dominando o pavilhão 8 e 9, pegando os funcionários que encontravam pelo caminho. No início a gente pensou que era rebelião pequena e tentou fugir, brigar com os detentos… mas aí foi todo mundo pego. Teve gente que chegou até a correr atrás de preso com cano de ferro na mão, mas os presos sempre estavam em número maior e vários tinham facas. Foi assim que todos os funcionários passaram esses 3 dias trancados dentro do almoxerifado, na lateral do pavilhão 6″.
Sobre Aprendizado e Justiça:
“Eu entrei no Carandirú garoto, com 18 anos… então eu acredito que aprendi muita coisa, aprendi a lidar com o ser humano, aprendi a valorizar a vida e aprendi a ver como funciona a justiça, já que todos os presos ali eram pobres, não tinham nada”.
Sobre o Parque:
“Eu acho que o Carandirú fez parte da história da cidade, mas se você andar por esse parque não vai encontrar nenhuma lembrança de que aqui foi um grande presídio, palco de tantos horrores… eu acredito que eles querem apagar isso dizendo que aqui é só um parque, um lugar bom e bonito e o que aconteceu antes que seja apagado… mas assim eles se esquecem também de educar os jovens de baixa renda, mostrando o que foi isso aqui… um lugar pra onde ninguém queria vir. Pra não dizer que não deixaram nada, deixaram um pedaço de muralha fingindo que era da detenção, mas que não era porque fica depois do córrego e a prisão só ia até o corrégo”.
Sobre o “museu”:
Eu comecei a juntar tudo isso aqui porque eu queria ter a minha versão dessa história, queria contar o que acontecia dentro dos muros… até hoje, tudo que se sabe do carandirú foi contado pelos dententos. Ninguém nunca ouviu um agente penitenciário contando suas memórias. Por isso eu fotografei, filmei e guardei tantos objetos. Eu quero expôr isso tudo, dar palestras sobre como era o dia-a-dia na casa de detenção e dizer pros jovens que não compensa entrar pro tráfico porque depois você acaba preso, brigando dentro da cela e amanhece todo furado, enchendo o chão de sangue… hoje em dia todo meu acervo fica tudo guardado lá no sotão, eu precisava de um lugar melhor pra tudo isso, mas por enquanto é o que eu tenho”.
Sobre os itens:
“Eu tenho facas que eles faziam com qualquer pedaço de ferro, cachimbo pra fumar pedra, máquina de tatuagem, bíblia que tinha arma dentro, granada de isopor que um detento fez pra tentar fugir em uma rebelião, bico de luz que eles faziam porque não podia ter luz depois que a gente apagava tudo e ia dormir, vários celulares apreendidos dentro das celas, baralho que eles faziam com papel porque o jogo também era proibido, tem até as perecas que eram duas pilhas abertas de cada lado com uma maderinha no meio e com um fio elétrico em cada lado pra ligar na tomada e colocar dentro de um balde com casa de batata pra fazer pinga… Tem também um acervo grande de fotos que a gente fazia. Eram fotos dos funcionários, dos prédios e depois começavam as fotos das igrejas, dos templos, até chegar nas fotos dos corpos… Quase todo dia aparecia um morto e eu comecei a fotografar isso também. Eles matavam por qualquer coisa. Teve gente que morreu porque roncava a noite e os outros não conseguiam dormir… dai furaram o cara”.
Sobre as mortes:
“Tinha muita rebelião que não era feita pra ninguém fugir. Os presos começavam uma bagunça, prendiam os funcionários no almoxerifado ou em alguma cela e antes de chegar a polícia faziam o acerto de contas deles. Uma vez a gente deu um preso como fugido durante mais de 3 dias, daí foram começando a achar uma perna debaixo de uma cama, um braço dentro de uma panela… juntando tudo apareceu o preso que não tinha fugido, mas foi morto e esquartejado pra esconderem o corpo”.
Sobre as cartas:
“Eu comecei a juntar cartas também. As cartas que os detentos recebiam e que depois ficaram nas celas quando o presídio foi desativado. Na maior parte eram cartas da família, ou das namoradas pra ajudar os detentos a passarem o tempo lá dentro. Eu separei uma aqui pra ler um trecho: Julio, nunca duvide que te amo demais. Meu nêgo, você faz tão bem pra mim que o amor que eu sinto por você nunca vai chegar ao fim. Meu coração é muito forte para te amar, mas muito fraco para te esquecer. Pare de perguntar se vou ficar te esperando, é claro que vou. Esperar você é tudo pra mim. Te amo. Só peço uma coisa, quando você sair daí, cuide de mim. Era assim que eles aguentavam o tempo lá dentro, com essa cartas, criando um vínculo fora daquele mundo também.
Ainda sobre as cartas:
“Eu conheci o Coronel Ubiratan (Ubiratan Guimarães, resposável pela ação da PM no dia 02 de outubro) dentro do Carandirú e ficamos amigos. Um dia mandei uma carta pedindo pra que ele desse sua versão do dia do massacre e ele me respondeu dizendo: que o episódio que ficou conhecido como massacre do Carandirú não foi massacre algum, o que houve foi uma ação retomada de um presídio rebelado e em chamas. Os presos destruiram a carceragem, roubaram cadeados e correntes e se trancaram no pavilhão 9. Por volta das duas horas da tarde, funcionários e carcereiros foram obrigados a se retirar e o pavilhão ficou sob total controle dos detentos. A partir dai começou o caos, os presos atearam fogos nos colchões, fizeram barricadas para tentar impedir a entrada da polícia. O chão estava com um palmo de água, os encanamentos foram arrebentados e o prédio estava completamente às escuras. Às 16:30 recebi a ordem para adentrar ao pavilhão 9 e conter a rebelião sem saber que isso mudaria para sempre minha vida. Eram mais de 2 mil homens perigosos, armados e que nada tinham a perder contra 90 policiais. Quando a PM conseguiu finalmente entrar no pavilhão encontrou uma emboscada preparada pelos presos: óleo de cozinha, pregos com sangue contaminado por HIV espalhados pela escada, tudo isso misturado a fumaça de incêndio e água dos canos estourados, era o inferno.
Sobre o presídio de Serra Azul:
“Em Serra Azul é um sossego só! Eu junto os detentos e a gente vai pro campo cuidar das ovelhas, da horta… Nunca mais passei por nenhuma rebelião. Nesses 6 anos que estou lá só fugiu um preso. A gente brinca e diz até que falta adrelina no serviço… onde eu cuido dos presos a cerca é de arame farpado, como em fazenda e ninguém foge. São presos de baixa periculosidade, ninguém é de gangue ou facção, eles estão lá pra cumprir a pena e querem reduzir esse tempo com bom comportamento… ninguém quer ser pego brigando ou tentando fugir”.
O Edifício Prestes Maia já foi a maior ocupação vertical da América Latina. Passou mais de 12 anos abandonado, acumulando 4 milhões de reais em dívidas com a Prefeitura, até que 468 famílias resolveram tomar os seus apartamentos e corredores. A ocupação durou quase 5 anos. No dia 15 de Junho de 2007, o prédio foi totalmente desocupado e lacrado.
Poucos meses antes, muitas das famílias que viviam no Prestes Maia se mudaram para um novo endereço ali perto, em frente à Estação da Luz. Na madrugada do dia 25 para 26 de março daquele ano, essas famílias ocuparam o número 340 da Rua Mauá. O edifício, que esteve fechado por 10 anos e que nos seus tempos áureos abrigou o Hotel Santos Dumont, passou a ser habitado por cerca de 120 famílias, que se engajaram na recuperação do prédio.
Foi lá que conhecemos melhor os habitantes desta São Paulo que São Paulo não faz questão de conhecer, ou reconhecer: uma grande maioria de migrantes nordestinos que ergueram prédios, abriram avenidas, cuidaram de lares e hoje não têm seu direito à moradia respeitado.
“Minha bisneta está desaparecida, fugiu de casa com uma amiga. A avó dela sonhou que ela estava afogada em uma cachoeira, mas a gente ainda acredita que ela esteja viva. A mãe está grávida de mais um, e assim a gente vai vivendo. Não é fácil morar em São Paulo, uma cidade tão rica, mas tão cheia de pobreza. Eu tenho parentes morando debaixo do Minhocão, passando fome, frio, medo. É melhor morar em ocupação do que na rua.” Maria do Carmo, ou vó, como é carinhosamente conhecida, mora na antiga zeladoria do hotel.
“Eu morava de aluguel num cortiço na Rio Branco, mas daí alagou lá e eu perdi tudo, roupas, móveis… aí eu, meus 3 filhos e meu marido viemos morar aqui porque uma colega conseguiu esse quarto pra nós. Atualmente, meu marido está desempregado, mas faz um bico aqui, um bico acolá e assim a gente vai juntando alguma coisa”. Cacilda da Silva.
“Agora ele tá bem, mas quando chegou no hospital ninguém dizia que ia viver. Os médicos chegaram a jogar fora um pedaço do crânio dele porque achavam que ele já estivesse morto, e agora ele precisa fazer a cirurgia pra colocar uma placa. Ele também precisa de uma cadeira de rodas, porque está ficando com desvio na coluna porque não tem mais firmeza nas pernas. Tudo por causa do meu ex-marido. Já fazia 7 meses que a gente estava separado mas ele não aceitava a separação. Aí, pra me atingir, ele entrou em casa, deu um tiro no meu filho, na minha mãe e se matou depois. Comigo ele não quis fazer nada, quis me deixar sozinha, sofrendo. Mas Deus é justo, deixou meu filho e minha mãe vivos. Com minha mãe não aconteceu nenhuma sequela, só com o Arturzinho. Roberta Sílvia Guimarães Dutra e Arthur Guimarães Dutra.
“Uma vez eu fui convidada para uma apresentação no exterior por causa do movimento, pra apresentar o MSTC (Movimento Sem-Teto do Centro) lá fora. Daí, quando eu cheguei, meu marido tinha pintado o apartamento e escrito esse “Eu Amo Você” na parede. É bom né, chegar e ver uma coisa assim, ainda mais pra nós que passamos tanto tempo lutando por moradia, pelo nosso espaço, pelos nossos direitos”. Ivaneti de Araújo, coordenadora do MSTC.